Li, não me lembro onde, que detectaram atividade cerebral num paciente após a sua morte. Sete minutos de ondas cerebrais dançaram pelos monitores, como se a pessoa, clinicamente declarada como morta, estivesse apenas a dormir.

Chamaram-lhe “Os 7 minutos após a morte” e refere-se ao fenómeno que ocorre quando o cérebro parece continuar ativo, por um curto período de tempo, depois do coração parar. Quando o corpo começa a gelar, o cérebro convence a morte a esperar e vai processando informações e gerando experiências.

Inocente, infantil, inconsciente.

É importante notar, estimado leitor, que esta teoria não é aceite pela ciência. Há falta de evidências conclusivas sobre a quantidade exata de tempo que o cérebro pode continuar a funcionar após a morte clínica. E as experiências relatadas, podem ser influenciadas por outros fatores como a privação de oxigénio, atividade cerebral residual e a interpretação subjectiva destas sensações.

Portanto, estes “Os 7 minutos após a morte” é um tema ainda em debate, tanto no campo científico quanto nas crenças populares. No entanto… e se?

E se estes 7 minutos são a última ponte humana que atravessamos?

Se nessa caminhada, de sete minutos, formos assistindo à última curta-metragem da nossa vida?
Do lado direito da ponte, o nosso nascimento e o primeiro colo, do lado esquerdo da ponte, o primeiro passo, o primeiro sorriso consciente, a primeira queda e o primeiro abraço.

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Olá,

Quando li sobre a teoria dos “7 minutos após a morte”, já não me lembro onde, pensei em ti. Não só em ti, sendo honesta, mas muito mais em ti.
Talvez pela, ainda infindável, profundidade da minha dor.

Penso muitas vezes nos teus últimos momentos, rodeado por quem não te reconheceria se te visse de pé e a sorrir. Penso muitas vezes se sentiste medo ou tiveste consciência.
Consciência do que estava a acontecer, do que poderia e aconteceria. Se pensaste em mim, nesses últimos momentos. Se te preocupaste por estar tão longe e tão alheia. 

(Tentei procurar por ti nos que te rodearam na ambulância, mas nem aí te encontrei).

Não mora em mim a mais pequena dúvida de que fiz parte dos teus sete minutos.
É a minha certeza absoluta. Mas gostava de saber quais segmentos de memória foram escolhidos para o teu filme.
Sete minutos de sessenta e dois anos. Pergunto-me… quem viveu até aos cem, teve mais tempo de filme?
Não ter dúvidas de que apareci nos teus sete, é motivo para sorrir. Mas não é suficiente, quero saber o que viste de nós. Que memórias te deram alento, te fizeram sorrir e te levaram da dor. E da vida.

Espero que as minhas birras e trombinhas de adolescente, não tenham passado no processo de casting. Espero que as vezes que me limpaste o ranho, o rabo e as lágrimas, tenham ocupado micro segundos do nosso segmento.
Será que esta curta-metragem tem música de fundo ou usa o som original? Do vento a fintar as folhas da árvore, dos risos e sorrisos, do correr dos nossos passos na areia, do som do mar ao Domingo, dos latidos infantis do Lupi, do beber do arroz de sangue da colher ou do cantar dos parabéns?
Será que viste à velocidade da luz, para ocupar pouco tempo, partes de todos os aniversários comemorados na sala da bó?

Nunca saberei o que te foi mostrado, por ti.
Sei que, quando chegar a hora de fechar minhas cortinas, o que no meu filme aparecer de nós repetirá partes do teu. Porque a produção da nossa obra parou quando te foste.
Quando te levaram, foi-se também a minha oportunidade de criar memórias contigo. Preservo as que ficaram, o que de nós ficou.

Quero então escrever o guião dos meus sete minutos, e começo por ti.
Manifestando um momento cinematográfico post-mortem, são estas as cenas que envio para seleção:
(Estão desordenadas, os sete minutos cumprem alguma ordem cronológica? Quantos segundos tenho? Posso considerar 62 segundos?)

5 segundos
27.03.1990, pegaste-me pela primeira vez. Não tenho essa memória, mas quero lembrar-me dela nos meus últimos momentos).

10 segundos
Algures em 2008, acompanhaste-me nas provas físicas de acesso Universidade de Desporto no Porto. Assististe, na primeira fila, à minha vergonhosa prova de ginástica no tapete. Já sabíamos que ia fazer uma figura tremendamente assustadora… mas a tua cara recheada de vergonha alheia… A tua cara, a minha cara ao ver a tua cara, a nossa cara… Sabia que seria uma boa memória quando te vi. Rimo-nos muito.

5 segundos
Julho de 2009 e em Bali. Seguíamos só nós, num pequeno autocarro turístico com microfone. Decidiste saltar do lugar, pegar no micro e fazer de guia turístico. Nunca te tinha ouvido a inventar tanto. Sabias que agora faço isso como profissão?!

5 segundos
Talvez em 1997? Na ria que banha a Costa Nova. A tomar banho e a mergulhar na água escura, Gostavas de mergulhar, de nos pegar nos tornozelos e gritar:
— Olha uma solha! – uma vez, só uma vez, foi mesmo uma solha.

3 segundos 
Setembro de 2012, casamento da Joana. Sinto que foi aí a primeira vez que me viste como mulher. 

3 segundos
2007 em Bali, descemos um escorrega aquático numa bóia dupla.

3 segundos
1999? Saltos das pranchas em São Pedro de Moel

5 segundos
2011, Aveiro. Noite do meu cortejo de finalistas. O momento em que te vejo, na rotunda do Glicínias, salto do carro e corro, a chorar, em direção a ti. Estava um pouco bêbada, o que não justifica o choro. Tu choraste também. 

5 segundos
2006, aeroporto Francisco Sá Carneiro. Voltaste da missão em Timor, corri na tua direção quando atravessaste as portas da saída. A longa distância tinha terminado.

Nos 18 segundos que me faltam, quero ver fracções destas seis memórias:
– Idas à Bracalândia
– Apanha do caranguejo com canas de pau e isca de bacalhau.
– Sessões de cinema em casa ao sábado à noite.
– Campeonatos de Bubble Shooter
– No Bowling, não mais voltei a ver alguém a recriar o teu jeito de mandar a bola.
– As tardes no Vagasplash.

Reviver isto, foi ver um filme. Para sempre insatisfatório, ainda não sou grata só pelas memórias. Quem sabe um dia.

Até já, Pappy.
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E tu, queres pensar sobre os teus sete minutos?

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